Passada a nossa TPM (Tensão Pós-Mundial), a gente já consegue olhar a situação por ângulos mais descontraídos, menos melancólicos e, por que não, mais construtivos. O das marcas esportivas, por exemplo. Quem, neste mundial, não ficou prestando atenção nos uniformes, nos materiais esportivos e nas multifacetadas formas que as marcas encontravam para aparecer mais, de forma ampla, impactante e surpreendente? Provavelmente eu e você ficamos. Sim, as empresas de material esportivo investem cada vez mais na promoção e exposição de suas marcas num segmento no qual atitude e personalidade são os principais itens para a concepção de uma imagem ou um comportamento que traduza a essência do posicionamento da marca. As formas de se fazer isso estão cada vez mais agressivas, criativas e diversificadas. Quem passou incólume pela “ponte” do goleiro Alemão Oliver Kahn criada pela Adidas e que girou o mundo como referência de mídia outdoor?
É, ações pontuais à parte, o mundial da Alemanha nos mostrou caminhos estratégicos distintos entre as gigantes do setor esportivo. Algumas concentraram valores altos nas chamadas “barbadas” e tiveram resultados aquém do previsto, outras pulverizaram seu budget entre os “azarões” e garantiram boa visibilidade, superando, muito, as previsões iniciais. Vejamos:
Clap, clap, clap…
Puma - A marca alemã pulverizou investimentos, focou suas forças nas seleções africanas, apostando que pelo menos um representante do continente chegasse entre os oito melhores, não deu. Mas como não são bobos de colocar todos os ovos em uma só cesta, também garantiram sua marca estampada num time de ponta. Deu no que deu, a Itália ficou com o título, e a Puma rindo à toa.
Marathon - Marcou presença com o Equador, e a simples passagem da seleção para a segunda fase do mundial já justificou, e muito, o seu investimento.
Joma - Esta espanhola adotou a Costa Rica e, com isso, figurou entre as marcas top do mundial. Não teve tanta sorte quanto a Marathon, que foi para a segunda fase, mas também viu seu investimento valer a pena.
Umbro - Para uma marca inglesa que já teve como slogan “Only Football”, ter somente duas seleções patrocinadas no mundial foi uma estratégia tímida, mas tanto Inglaterra quanto Suécia estiveram impecáveis com o design dos seus uniformes. Só com o design.
Bleargh...
Nike - Como a segunda marca em número de seleções patrocinadas (9 contra 11 da Puma), apostou alto em seleções fortes, mas ficou pelo caminho. Já deve estar montando seu novo “cast” para 2010.
Adidas - Foi a marca mais lembrada do Mundial, é patrocinadora oficial da Fifa e da seleção anfitriã. Pelo que investiu, não vi nada demais, a não ser a “ponte do Oliver Kahn”. Foi isso, investiu e colheu resultados, simples assim.
Lotto - A italiana poderia ter feito como a americana (Nike), a Alemã (Adidas) e a inglesa (Umbro) e patrocinado sua equipe, né? Devem estar tristinhos, tristinhos...
Assunto do momento, portanto, alvo de elogios e críticas das mais variadas. Nada melhor do que dedicarmos alguns minutos de atenção às marcas do nosso inflacionado evento esportivo. São três símbolos que representam o Pan, o Parapan e o mascote, batizado de Cauê, nome escolhido numa votação pública realizada Brasil adentro. Sobre as marcas, o que posso dizer, hum… Vejamos:
Jogos Pan-americanos Rio 2007
Marca criada pelo escritório Dupla Design, do Rio, totalmente inspirada nos recortes da paisagem carioca, tendo como ponto de destaque o Pão de Açúcar e seus contornos bem delineados. Fora o narcisismo exagerado do pessoal daquelas bandas, até que a fonte de inspiração foi boa, rerere…
Com cores abundantes e muita vivacidade, é um símbolo leve e muito ágil. Sua tipologia é moderna, esbanja sutileza nos “rounded corners”, que podem passar despercebidos por muitos, mas são decisivos para dar leveza e dinamismo ao conjunto. A opção pelo deslocamento vertical do ano, deixando o destaque por conta do número 7, acho dispensável, já que o símbolo por si só demonstra força para sustentar todo o conjunto.
É uma marca completamente adequada aos padrões multinacionais, multirraciais, multiétnicos e multicoloridos que o mundo instituiu para estimular “a união entre os povos”. Ou seja, toda vez que seguirmos estes padrões, acabamos tendo que agradar gregos e troianos, tarefa fácil, não?
Jogos Parapan-americanos Rio 2007
Derivação do mesmo tema, aqui o discurso é levemente alterado para a “união em torno de um mesmo objetivo”, aquele mesmo tom de igualdade que de tempos em tempos, e sempre acompanhados de eventos sociais ou esportivos, invade a nossa vida com a missão de nos convencer de que somos todos um só coração, uma só estrela…ai, ai… A marca é boa, mantém a identidade, mas o Parapan, da forma como está colocado, me lembra o tema da vitória da Globo, PAN, PAN, PAN… Cu-ru-zes.
Cauê, o mascote dos Jogos
O sol nasceu para todos e nada mais adequado para retratar a bendita igualdade do que ele. Desse raciocínio, a criação e materialização do mascote foram um pulo. Vejamos a receita: um solzinho da igualdade, traços infantis e irregulares para dar um ar de espontaneidade, expressões alegres e poses ativas representando a vitalidade dos jogos, mais as cores pré-definidas anteriormente… é isso, temos um mascote.
Agora, as perguntas são: todos esses padrões de diversidade estabelecidos para um evento como esse são bons para o design? Ajudam na construção de uma boa marca? Diminuem barreiras? Eu respondo, tudo que é múltiplo, variado e diverso é bom, traz riqueza, faz progresso, avança e aprimora. O que não podemos é tentar, num só trabalho, agradar a toda essa multiplicidade, sob a pena de um resultado final confuso, alegórico, exótico e de pouco valor. Use toda a multiplicidade de informações disponíveis para obter um resultado único e deixe que o seu concorrente faça o caminho inverso e, se der, me ligue para contar como foi.